como eu sinto e vivo com a paralisia cerebral?

Lembrei-me de uma mãe que ao ler as minhas crónicas de facebook deixou um comentário de muita tristeza, porque lhe tinham dito, umas horas antes, que o filho tinha paralisia cerebral. Fiquei contente com o comentário que ela deixou. Disse-me que ficou menos triste e ainda bem, só por me ler. Dizem-me que sou positiva na maneira de ver e escrever o mundo em redor. É verdade que poucas vezes pensei em abordar este tema nos meus textos. Toca-me, vivo com ele e por isso ganhei vontade e é disso que vos falo, na minha maneira de ver as coisas.

Confesso que sou alegre, o meu pai diz que sou bem resolvida, como que se houvesse resolução para um problema que vai viver comigo para sempre… Mas na verdade, eu encaro muito bem a paralisia cerebral, mas há coisas que me preocupam, porque agora estou na adolescência, já penso em  rapazes, naquelas coisas normais de uma rapariga da minha idade. Mas sabem? Eu não sou daquelas pessoas que fica muito triste por ver as minhas amigas já a namoriscar e eu ainda sem ter nenhum rapaz que goste de mim, sim… porque sinceramente eu acho que ainda tenho muito tempo para essas coisas. Não vale a pena ficar triste nem pensar por antecipação naquilo que a vida nos vai fazendo e dando!

Agora o que eu sei, é que a sociedade quando olha para uma pessoa com paralisia cerebral, pensa sempre assim: – “Ai coitadinha é tão lindinha, e nem vai casar nem ter filhos nem vai conseguir tirar a carta de condução…ai coitadinha “.

Coitadinho é de quem pensa assim. Digam lá se não concordam comigo? Hoje penso à minha maneira, com boa disposição e pensamento muito positivo, que lá irei crescendo na diferença. Sem ser vaidosa, até acho que vejo as coisas de forma menos fútil do que muitos jovens da minha idade.

Também acho que por mais que se criem dias de sensibilização, a sociedade ainda está muito aquém daquilo que podia  ser a aceitação da diferença e daquela palavra bonita de dizer e pouco usada… a solidariedade. Não acham que é assim como digo e que tenho razão?

Por mim, encaro a vida com felicidade  e alegria. Mesmo, mesmo, não é só textinho bonito para estar aqui a fazer palavras cruzadas… Acho que não é preciso andarmos aí a chorar pelos cantos, porque senão, é pior para se ultrapassarem os obstáculos que vamos tendo ao longo do caminho da vida!.

A minha vida ainda é curta, mas digo-lhes que tenho memória de coisas por que já passei, aquilo que nem mesmo os adultos passaram. Dores, terapias que me revoltavam pela maneira como me doíam e eram feitas. Ouvir médicos a dizer coisas aos meus pais, pensando que eu não entendia tudo da maneira como eles diziam. Os meus pais depois, mesmo em pequenina, explicavam-me e fazíamos uma grande risota, da forma como eles falavam. Acho que isso também me ajudou a ficar assim como sou, com uma carapaça sorridente. Claro…os meus pais sempre muito amigos e preocupados. Sabe Deus como eles sofreram! A minha mãe muito presente, a correr comigo para todo o lado, onde achavam ou lhes contavam que poderia ter melhoras. O meu pai sempre positivo e a fazer-me rir, como um exemplo para lidar com a indiferença. Sempre a darem-me força para eu ser ainda mais forte, os meus irmão, resmungões mas atento. Foi por isso que consegui chegar aqui com esta determinação e boa disposição. Acho que agora já não vou perder essas duas palavras na minha forma de ser. Determinação e boa disposição.

Eu sei que ainda sou nova para vos falar dos obstáculos que a vida nos vai colocando ao longo do caminho, mas  olhem que, como vos digo, eu também já  vou tendo alguma percepção desses obstáculos, porque os meus pais sempre me põem a conviver com alguns jovens também diferentes, por exemplo a Liliana, a Lili tem PC e já tem alguma experiência da vida e dessas dificuldades de que vos falo, mas mesmo assim ela encara a vida a sorrir, e tem sempre em mente a palavra “Vontade!” A Sara, de quem também já vos falei e conheci através dos meus textos, foi também para mim uma inspiração amiga. Ambas são já adultas e sofreram como eu de paralisia cerebral, ao nascer. Somos tantos, que muitas vezes nem reparam em nós! A Rita Cuca, a Fernanda, sei lá quantos mais!

Como já vos disse, quando for grande, acho que quero ser jornalista, mas  para isso ainda tenho de me esforçar  muito e estudar muito  mais. Quando se é diferente, não basta ser bom, tem que se ser muito bom, para marcar a tal diferença. Aqui posso usar com total propriedade aquela frase: sem esforço nada se consegue! Lá está!. Sempre a palavra diferença em tudo. Eu acho que a família nesta questão de lutar, é importante porque nunca nos deixa ir abaixo. Mesmo baixinho e ao ouvido, eles estão sempre, sempre a repetir as palavras, “Querer e Determinação.” Para mim isso tem um papel importante. Não acham?. Eu não vos vou mentir, não pensem que  às vezes também não   passo por momentos   mais difíceis e tristes, porque é verdade que passo, não sou diferente das outras pessoas… Mas essa tristeza passa logo para a boa disposição, começo por disfarçar e depois esqueço-me que estava triste.

Já percebi há algum tempo, quando comecei a pensar nisto tudo, que a família ao longo da minha  vida, terá sempre um papel importante. São eles que nunca me vão deixar de lembrar que tenho que sorrir, pela sorte que tenho em ser como sou!

Gosto de frases e pensamentos e li uma de um senhor chamado J.R Tolkien (fui pesquisar e apenas sei que ele foi um escritor e poeta inglês, muito conhecido por ser o autor do “Hobbit”, e “Senhor dos Anéis”), que disse:

“Onde não falta vontade existe sempre um caminho”.

É esse caminho que faço apoiada na vontade de querer e no olhar atento ao mundo cruel que me rodeia, para onde eu sorrio. Afinal a diferença e a Paralisia Cerebral são apenas uma forma de viver. E quem disse que a paralisia é que me impõem limites a mim? Fiquem já a saber que eu é lhos imponho a ela! Faço questão que ela perceba sempre quem manda!

Além disso, eu não sou a paralisia cerebral…eu sou a Rita!