o texto de hoje não foi escrito por mim, mas depois de o ler, senti que era exatamente aquilo que eu penso e,  de certa forma, vivo.

Este é um dos assuntos do qual quase ninguém fala, porque simplesmente é “tabu”. A verdade é que nos dias de hoje e na sociedade padronizada  em que vivemos é cada vez mais recorrente esta solidão na vida das pessoas com deficiência.

Fiquem então como texto de Sarah Santos palestrante e jornalista brasileira:

Estar fora do padrão de beleza pode influenciar negativamente nos relacionamentos em um contexto recheado de preconceitos. A deficiência física, intelectual ou mental pode ser um fator que afasta totalmente um indivíduo dos modelos estéticos ideais. Ao estar longe dele, até o amor pode se tornar mais difícil. Pessoas com deficiência estão cansadas e quiçá acostumadas com as barreiras arquitetônicas que a falta de acessibilidade traz, mas as dificuldades do convívio sempre serão maiores e mais árduas de se superar.

Ao avaliar este quadro de preconceitos enraizados, seria um desserviço não enxergar a mulher com deficiência no centro da discriminação. Em um contexto de revistas, novelas, editoriais de moda e influenciadoras digitais que pregam fielmente uma perfeição utópica, mulheres com limitações físicas são meras espectadoras de tudo que é considerado belo.

Mesmo em meio à discursos politizados, o preconceito segue velado. Nunca se ouviu tanto a palavra empatia, mas no tocante a relações românticas e sexuais, as pessoas insistem em colocar seus supérfluos julgamentos na frente, o que as impede de se relacionar com mulheres incríveis. Avançamos na igualdade de gênero, respeito racial ou a orientação sexual. Levantamos bandeiras pelo fim das injustiças sociais, mas no que diz respeito às mulheres com deficiência, a prática é muito diferente das teorias que repetimos no espelho todos os dias.

Não somos convidadas para os ‘rolês’, somos a última opção dos garotos e dos times e esportes, mas seguimos vistas como ‘exemplo de superação’ e representadas na mídia com uma visão capacitista da deficiência. Vez ou outra, a discriminação bate à porta. Ao conhecer uma pessoa nova e sentir que “deve” à ela justificativas sobre a deficiência, ao receber elogios como “parabéns por sair de casa”, “você é bonita para uma menina com deficiência” enquanto passeia à noite, ao ser enaltecida como exemplo de superação enquanto só quer se distrair.

A imagem do parceiro supervalorizado também paira nesses relacionamentos. Pois quando uma pessoa com deficiência namora alguém sem deficiência, é comum olhar seu companheiro com outra aura, como se ele fosse bondoso e amável demais por se relacionar com alguém que possui uma limitação física ou mental. Os holofotes sobre esses relacionamentos mostram uma clara situação de prega de rótulos.

Por esses motivos, é muito mais fácil encontrar pessoas com deficiência em relacionamentos abusivos, sofrendo violência psicológica, moral ou física. São entendidas por uma sociedade despreparada como mulheres vulneráveis demais para se relacionar, mas diferentes demais para serem valorizadas como aquelas que preenchem todos os padrões de beleza. O medo de estar sozinha faz com que suas qualidades sejam negociadas em troca um pouco de afeto. E não há crime maior consigo mesma que negar o que tem de bom em si.

É preciso muito amor próprio para viver em uma sociedade preconceituosa sem esmurecer. Acreditar em si mesma e em quem está por perto para se relacionar com confiança, respeito e carinho. Reconhecer suas qualidades e investir nelas. Mas também, é preciso que pessoas que não possuem deficiências vasculhem seus preconceitos e se desarmem deles, para ter a chance de conhecer mulheres tão bacanas quanto as que correspondem a todos os requisitos de beleza. A beleza de uma não anula a da outra.

E, mulheres com deficiência, quando alguém não te amar como você merece ser amada, vista-se de coragem e destreza para seguir em frente. Pois estar junto de outra pessoa é bom, mas estar bem consigo mesma é delicioso.

Texto de Sarah Santos