Quando ainda não sabia o significado de algumas palavras e até frase mas a sonoridade daquelas músicas já faziam todo o sentido para uma miúda de 5 anos…

Um presente que foi dado à minha mãe mas que facilmente se tornou o meu melhor amigo e o maior inimigo da minha pois ouvia o mesmo CD TODOS OS DIAS SEM PARAR DURANTE HORAS.

Inicialmente, a minha mãe colocou o CD da Adriana Calcalhotto para eu parar de fazer perguntas do tipo “quando é que chegamos?” “Ainda falta muito para chegarmos?”. Fazíamos todos os dias o caminho de Espinho para Coimbra ao som da música da Adriana Calcalhotto.

Não sei como nem porque, mas “o tal CD” acalmava-me.

Não sabia o significado de muitas das palavras que eram cantadas, não sabia o que eram as “cenas” do amor. Apenas sabia que gostava daquelas músicas, daquela voz.

É estranho uma miúda de 5 anos, gostar de músicas assim, tão complexas. Estranho ou menos comum é uma miúda de 5 anos não poder brincar ou ser privada disso por causa das longas horas que passava em terapias para contrariar uma coisa que a fez diferente para sempre, mas não menos igual nas vontades e ambições comuns a todas as miúdas da sua idade

Essas tais músicas eram complexas e maduras para uma criança daquela idade, mas talvez me cantasse ao ouvido aquilo que eu precisava de ouvir, naqueles anos que foram decisivos para a minha desenvoltura de hoje.

Sempre, até com 5 anos gostava de parecer adulta como se vê pelo gosto musical da altura…

Ainda assim, descobri hoje que o álbum que ouvia, se chama Adriana Partimpim, que afinal, ao contrário do que eu pensava, é um álbum e um personagem que ela criou para cantar crianças. Depois de o ouvir de fio a pavio percebi, que passado estes anos todos, continuo a saber cada uma das músicas e a canta-las sem falhas na letra.

 

Não sei se algum dia terei oportunidade de conhecer a Adriana Calcanhotto, confesso que gostava muito. Não para lhe dizer que sou fã ou até que sigo o seu trabalho, mas acima de tudo, para lhe dizer apenas que a sua música me traz boas memórias de um tempo que podia ter sido negro e desesperante principalmente para a minha mãe que largou tudo por mim e para me poder acompanhar nos tratamentos, mas que na verdade, olhando para traz e apesar do sofrimento e luta foi um tempo de glória. Em que a música e eu CD em especial da Adriana Calcalhotto esteve presente. Sempre.

Não sei, mas deve ser boa a sensação de saber que podemos fazer a diferença na vida dos outros. Por mais pequena que tenha sido, esta tal música fez.

Agora, não ouço com tanta regularidade a música da Adriana C. até porque ia perder a magia com que guardo estas memórias.

Eu e a música e a música e eu.

E com isto já revelei uma das mais bonitas memórias que tenho. Pouca gente sabia isto. Agora pronto o mundo já sabe mas por favor tratem esta minha memória com muito carinho.

E se por alguma eventualidade eu tiver a sorte de ter a Adriana a ler este texto:

Um beijinho enorme e obrigada pela companhia que tantas vezes me atenuou a solidão e até o sofrimento pelo qual eu nem sabia estar a passar.