Encontrar uma alma que seja bonita e repleta de luz  não é fácil. Outra das coisas que para mim também não é nada fácil é brincar com as palavras. Digo isto porque apesar de gostar de escrever e de até já ter um livro publicado, ainda tenho muito que “caminhar” .

O certo é que quando escrevi o livro tive uma surpresa em forma de texto de uma sensibilidade tão particular que  ainda hoje,  nem sei o que o que dizer.

O Valter Hugo Mãe em 2015 escreveu o prefácio do meu livro mesmo sem me conhecer.
Na altura achei isso incrível, só alguém com uma alma tão bonita quanto a dele poderia fazer uma coisa dessas por uma miúda que na altura ainda nem sequer conhecia. Só me conhecia e eu a ele através da escrita e mesmo assim conseguiu analisar e escrever sobre o meu livro como ninguém. Os seus textos são de uma profundidade que não se explica, nem é para todos. Só ele sabe escrever e ser tão profundo e ao mesmo tempo tão especial na forma como descreve essa profundidade de sentimentos.
Não me perguntem como isto tudo aconteceu, a verdade é apenas uma: ter alguém como o Valter a escrever o prefácio do meu livro, não para todos. Por isso acho que mais que nunca que sou privilegiada pelas pessoas que se vão cruzando comigo no caminho.
Só nos conhecemos pessoalmente ontem. Só ontem lhe consegui agradecer toda a sua grandiosidade.
Não consegui dizer tudo quanto queria. Aqueles minutos foram demasiado especiais para mim para poder dizer tudo e mais alguma coisa. A única coisa que guardei no coração foram aqueles minutos. E a frase que me disse no final “não pares”
Não vou parar mesmo. Deixem só passar os exames e sou toda da escrita e ela por enquanto será minha. Quando chegar ao mundo será vossa.
Até breve Valter.
Um obrigada é pouco talvez um dia saiba dizer mais por agora não tenho palavras.

 

Fiquem com as palavras que o Valter me escreveu em 2015:

“A Rita explica-nos a todos. Há uma lucidez no seu discurso que muitos de nós, adultos, já perdemos. De facto, envelhecer pode ser criar uma miopia, uma espécie de desistência ou adiamento para sempre.

A juventude da Rita urge e tudo se depara diante dela com a verdade exposta como um fruto simples. O livro da Rita é uma colheita, uma reclamação de colheita. Ela observa o mundo na sua desarmante evidência e estabelece a moral da decência, ou seja, ela esclarece a esperança. Fala com essa esplendorosa atitude de quem espera tudo, o que se torna facilmente numa lição de vida para aqueles que se deixaram mofar no coração.

Sabemos bem que ser adulto é complicar, ganhar medos, fazer cerimónia, andar às voltas e voltar a não acreditar em nada. Somos uma construção de infinitas faces, sempre iludi- dos com haver encontrado uma verdade, algo perene. Sentimo-nos tolos quando a Rita expõe o início do mundo.

Quero dizer, quando a Rita expõe como cada assunto é antes da construção das infinitas faces. Guardo para mim a ideia de perplexidade ao encontrar este discurso. Subitamente, as águas turvas sobre a realidade foram aclaradas, como se a limpidez das palavras fosse uma limpidez deitada sobre a própria realidade e vemos, atónitos, como os sonhos se simplificam. Subitamente, a honesta simplicidade é a perplexidade inteira.

As palavras da Rita pousam sobre o nosso dia como uma magia de regressar ou, ao menos, de apontar o caminho para o regresso ao essencial. Porque nos explica a todos, inevitável- mente iguais pelos sonhos maiores, a Rita é uma universalidade, ela contém toda a humanidade. Não haverá maior ofício do que o de encontrar em si mesmo a medida para o entendimento de todas as pessoas. Não haverá mais digno ofício do que o de encontrar em si mesmo a medida para o entendimento de todas as pessoas. Porque essa é a chave para a solidariedade. A chave para o que verdadeiramente se designa por humanidade. De alguma forma, podemos perder a chave quando crescemos. Haver quem nos aponte a redes- coberta é tão precioso quanto mudador.

Ler a Rita é criar nitidez, terminar o impreciso, o indefinido, sobretudo da vontade. Há um sol de uma galáxia interior que se pôs no centro deste livro, fico com a impressão de que podemos morenar enquanto a lemos. Caminhamos na pura luz. A cada texto transparecemos. Ao alcance, nem que por um ínfimo instante, também a pureza nos diz respeito.

Eu sei que este livro é feito de protesto. Ele reclama efetivamente o mundo. Quer dizer que a Rita não veio para assistir, ela veio para participar. Sentimo-nos também responsabilizados à participação. Ou seja, quem pode e não faz é tonto ou precisa de ajuda. Somos como que convidados

a ser gente. Penso assim. A Rita, porque é a totalidade da humanidade e sabe aquilo que nós tragicamente tendemos a esquecer, convida-nos a recuperar a glória dessa candura ini- cial. A única coisa que distribui o mérito e o que mais funda- menta o amor. Nas mãos dos leitores está um manual para os amores, esses profundos que reeducam para a sensibilidade, a generosidade e, mais do que tudo, para a esperança.

A Rita reclama o mundo como quem, ao invés de o aprisionar, lhe ensina outra vez um melhor modo de continuar. A beleza da Rita significa que em nós há beleza também. Devemos estar-lhe gratos por fazer ver isso em nós. Por acreditar em nós.” 

Valter Hugo Mãe