O CENTRO CULTURAL FAZ 40 ANOS

Avô querido. Cada vez mais e mais tenho um orgulho enorme por te ter tido como avô.
Foi contigo que aprendi a ser boa pessoa e a dar tudo em prol de causas. A nossa causa em que acreditamos, a causa que queremos seguir e aquilo que acreditamos e também para podermos deixar o nosso exemplo nos outros, para que continuem na jornada da vida com o mesmo propósito.
A arte sempre esteve em ti. Foste desenhador (de profissão) e sempre adoraste cantar o fado e eu acompanhava por vezes a cantarolar.
Essa tua paixão pelo fado e pela música em geral, fez com que fosses fundador de um centro cultural, precisamente para espalhar a música pelos corações da vizinhança, mas também para haver um espaço de convívio.
Fazias aquilo que mais gostavas (cantar e dinamizar momentos de divertimento e convívio).Tudo isto com o objetivo de envolver toda a comunidade e fomentar o gosto pela música.
Fazias tudo isto com um sorriso sereno, também tinhas de lutar contra alguns dissabores, a troco de nada, apenas pelos outros e pela tua paixão pela música e convívio. Passavas horas e horas lá pelo centro cultural. Tantas horas que quando chegavas a casa tinhas a avó a resmungar de tanta dedicação aos outros. (Eu bem me lembro disso!)

Estes dias lembrei-me novamente das saudades que tenho de ti (pela forma como te entregavas aos outros)e simultaneamente de uma música (dos Deolinda) que resume aquilo que foste para mim e para todos os outros que se cruzaram contigo e que tiveram a sorte de te ouvir cantar
A música diz isto:

 

“Que mais canções é que farias tu, ó ai se não morresses novo? Quantas canções ficaram a ser ter voz
na voz calada deste povo?
Que espaço ocupam as canções que não cantaste? No espaço aberto do silêncio que deixaste
Talvez um dia uma máquina consiga, ler nesse espaço as canções que tu farias
E as canções que tu farias eu dançaria, ai eu dançaria ai eu dançaria! E as canções que tu farias eu dançaria, aí eu dançaria ai eu dançaria! Que mais palavras cantarias tu, ó ai se estivesses cá connosco?
Essas palavras que são o que eu sou que são tudo aquilo que somos. Que vida existe nas canções que não escreveste? E que mais vidas nos darias que não deste? Talvez um dia uma máquina consiga trazer-te em vida nas canções que tu farias
E as canções que tu farias eu dançaria, ai eu dançaria ai eu dançaria! Talvez um dia uma máquina consiga
Ler nesse espaço as canções que tu farias
E as canções que tu farias eu dançaria, ai eu dançaria ai eu dançaria!”

E eu acabo sempre embalada pela música e provavelmente por ti em pensamento. Uma coisa te posso garantir, em tua memória a forma apaixonante como te envolvias na música e em tudo o que tivesse a ver com mesma, será esquecido.
Todos nós (família e atual direção do centro cultural) temos em mãos a missão de cuidar e preservar a obra bonita que deixaste.

Nós cá continuamos a lutar por tudo aquilo em que sempre acreditaste. Que a luz em forma de música chegue até ti, estejas onde estiveres….

Um beijinho musicado da tua neta
Rita