Verão Azul #1

É já amanhã que o Verão volta a ser azul. Chegam para um mês de férias e muita brincadeira, são quase três dezenas de crianças de Ivankiv, são acolhidas por igual número de famílias que de se disponibilizam há já dez anos para acolherem os meninos de Chernobyl.

São os tais que vêm com a maior felicidade do mundo, não escondem a emoção do reencontro com as famílias que também são delas por um mês. 

Muitas dessas crianças nunca tinham visto o mar. Lembro-me do olhar de espanto da Roslana ( a criança que acolhemos em nossa casa). Um olhar deslumbrado que só percebi mais tarde quando ouvi o que dizia na reportagem do Carlos Rico (SIC). Na entrevista que lhe fez, já na sua aldeia contaminada da região de Chernobyl, ela diz-lhe que o que mais a tinha impressionado na primeira vez que veio, foi poder ver o mar, acrescentando ao seu espanto uma frase que não esqueço: “O mar é tão grande tão grande que nem se vê a outra margem”.

É uma felicidade poder acolher essas crianças. É bom saber que estamos a construir uma ponte para lhes dar a outra margem, só assim podem ver que o mundo não é só o território triste e contaminado em que vivem e nasceram sem esperança igual.

Os miúdos,com o apoio essencial da Liberty Seguros, podem vir até aos 16 anos. Cá em casa recebemos a Roslana e agora a Dasha. Daqui a um mês ela vai regressar com outra cor, outro sorriso que se vai esbatendo como uma foto que amarelece ao longo de um ano que vai passando enquanto pensa em voltar.

A partir de hoje por uns dias irei recuperar e reescrever alguns textos sobre o que encontrei em Chenobyl quando fui ver com os meus olhos o que é a pobreza intrínseca do lugar sem os afetos das coisas mais simples. Sem pressa, farei o filme do que vivenciei no contato com as crianças de Ivankiv, e na visita a um lugar onde a morte é lenta e invisível, toda aquela região proibida em redor de Chernobyl.

Sem pressa, farei o filme do que vivenciei no contato com as crianças de Ivankiv, e na visita a um lugar onde a morte é lenta e invisível, toda aquela região proibida em redor de Chernobyl.

Terras onde encontrei imagens e afetos esmagados por uma dura realidade. Olhos bonitos ainda expressivos, crianças fintadas pelo destino que contam os dias que faltam para chegarem ao sol. Dei comigo a pensar que o mundo é pequeno, a vida é dura e faz de nós o que quer, por vezes são outros, até desconhecidos distantes que trocam as voltas e lhe dão sentido ou oportunidades.

Visitar Chernobyl, conhecer as condições de vida de muitas das crianças é uma experiência para toda a vida que se define numa única frase roubada ao título da obra de Milan Kundera: “o que vi e senti é a insustentável leveza do ser.”.

Sem compromisso, viajei só́ para ver e conhecer essa dura realidade, as privações.

Percebi, isso sim, que os olhos podem gritar em silêncio, jubilar de alegria, ou mesmo gelar quem passa distraído ao lado. Proponho-lhes essa viagem. Eu pude caminhar silencioso, às vezes arrepiado, preso pela estranheza do lugar, percorrendo as terras abandonadas e tóxicas. Fui lá no outono quando a primeira neve cai branca mas escurece rápido ao chegar ao chão de lama e desespero de vida.

Amanhã, venham de novo até aqui porque farei com que possam ir comigo, nas palavras e memórias até onde o vento ainda sopra radioatividade, as plantas crescem doentes, a vida é injusta e aquecida com vodka, como quem desinfeta uma ferida que sangra e não tem bom ar. É assim há décadas desde que o reator lhes ditou um futuro triste.

Mário Augusto

Um comentário em “Verão Azul #1

  1. Filomena Responder

    Oh sr Mário Augusto o sr .é o exemplo de ser gente …gente que pega no seu trabalho e o usa para trazer luz sobre as o mundo…O cinema e a vida das gentes que neles figura é uma forma conhecer…mas tb traz luz sobre os menos previligiados .Haja pelo que faz com a sua família linda e rica de amor e afeto que vamos conhecendo melhor atravez da Linda jovem que é sua filha.Parabéns .

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