“A VOSSA FILHA NUNCA VAI ANDAR!”

Com 20 anos, percebo que quando nasci os meus pais passaram situações muito duras.

Ainda que a medicina seja uma ciência (quase) exata não pode ser “cega”.

No momento em que, apresentam a deficiência aos pais, os profissionais de saúde, não deveriam ter o direito de dar, uma notícia destas, de forma tão brusca. 

Quando nasci para além de só me terem detetado a PC aos 6 meses, fizeram questão de salientar que provavelmente, “nunca iria andar”.

Bem sei que os médicos estão apenas a fazer o seu trabalho, porém, deveriam ter a sensibilidade para perceber que nem tudo o que vem nos livros de medicina é lei absoluta.

Aliás, na paralisia cerebral, nenhum caso é igual a outro. Tudo depende, do local do cérebro onde a lesão está localizada, logo, para quê fazer futurologia?

A esta distância, como mulher e espírito maternal bem desperto, digo-vos que não sei como a minha mãe principalmente, aguentou toda a pressão.  

É duro. Os pais são julgados por tudo e por nada, ainda mais quando há uma deficiência, esse julgamento amenta exponencialmente, como se os pais não soubessem o que é melhor para os seus filhos.  

O foco passa a estar na deficiência e não na criança, o que não faz sentido. Acima de tudo, a criança tem o direito de explorar tudo que faz parte da sua idade.

A verdade é que o cérebro dos pais, começa a entrar em piloto automático, querendo a toda a força encontrar a cura.

É perfeitamente compreensível, porém, acho importante fazer o luto e perceber o que é verdadeiramente importante para a criança naquele momento.

Na altura, os meus pais experimentaram vários métodos, simplesmente para descartar todas as hipóteses. Ainda assim, com dois três anos já tentava dar voto na matéria, por isso, selecionaram a terapia que me sentia mais à vontade.

Para além de ter um irmão mais velho e outro mais novo (só com dois anos de diferença de mim) que sempre me estimularam muito, tive também a sorte de encarar as terapias de forma pacífica.

Na verdade, não existe formula secreta para estar à altura do desafio é simplesmente deixar fluir e se agarrar à cura. É difícil, mas não é impossível

Não quer dizer que ela um dia não chegue, mas por experiência própria, acho que não se deve viver uma vida em função disso.

No dia que se deixa de pensar na cura e se passa a fazer tudo para os progressos acontecerem naturalmente e com qualidade de vida, todos somos mais felizes. Se alguma vez pensei chegar aqui? É certo que era um objetivo, ainda assim, nunca pensei conseguir chegar à faculdade e fazer uma licenciatura com toda esta facilidade.

Quando olho para trás, sou grata. Aos meus pais que nunca (mesmo quando foram invadidos pelo medo) deixaram de acreditar em mim e trouxeram-me sempre pela mão sem me deixar cair. À vida por todas as oportunidades que me deu e vai dar.

E quem disse que NUNCA ia caminhar? Em boa verdade faço isso todos os dias amparada no meu andarilho e em quem me quer bem.O essencial é não desistir e entender que antes de uma deficiência há uma pessoa que deve viver uma vida em pleno sem que nada, nem a sua deficiência, a impeça de viver uma vida feliz e sem limites. A limitação existe é certo, mas a força vontade é muito maior que tudo.

8 comentários em ““A VOSSA FILHA NUNCA VAI ANDAR!”

  1. Manuela Cruz Responder

    Os teus pais foram os teus médicos, os teus terapeutas os teus Tudo. Tu foste a outra parte, a recompensa. Os médicos, alguns ainda os brutos com Dr. que falam o que está no livro, sem alma, sem pensarem que estão a falar ou a tratar de um ser humano. Poucos são os que se interessam, que respeitam, que dão tudo, mas os que existem fazendo a diferença, são como tu, dedicados escritores, pesquisadores sem fim do que de melhor se pode fazer para valorizar a vida por isso há médicos e Drs.

    • Eugénia Paula Rodrigues de Almeida Responder

      És uma menina fantástica, tal como os teus pais.
      Força Rita, anda, mas sobretudo faz aquilo que tão bem sabes fazer : voar!

  2. Susana Patrícia Cardoso Neiva Responder

    Parabéns Rita!

    Pela FORÇA
    Pela RESILIÊNCIA
    pela ÂNSIA de Viver
    Pela familia que tens
    E sobretudo pelo TEU SORRISO 😀
    Um GRANDE beijinho para ti e um muito especial para a tua MÃE.

  3. Fernando Barata Responder

    Olá Rita. Adorei o teu texto, adorei o teu reconhecimento para com os teus Pais, Adoro o teu amor à vida, adoro a forma como dás as tuas respostas a quem têm olhar de soslaio. Adoro-te pela força que tens. Sei que já ouviste falar de mim, mas, não me conheces. Eu sou das ultimas pessoas sobre a terra que conheceu o teu bisa- Avô materno, D. Alberto Rodrigues Bolhosa, Homem que nunca me canso de dizer que foi o maior amigo do meu Pai. Gostava que procurasses saber que a tua força foi herdada do teu Bisa-Avô. Beijinhos.

  4. Rosa Maria Ferreira Responder

    Rita, não tenho dúvidas que mesmo que as tuas pernas, por vezes, não te obedeçam, vais conseguir chegar muito longe !
    A cada dia que passa, vê-se que os teus horizontes são infinitos., ao contrário daqueles, que sem sensibilidade, deram a notícia aos teus pais. Não podemos confundir formação académica com formação moral, que é aquilo que falta a muitos médicos.
    Ninguém tem o direito de roubar a esperança !…

  5. Rute Gago Responder

    Parabéns por todas as conquistas, Rita.
    Tens uma vida pela frente para continuares a sonhar e alcançares tudo o que desejas.
    És uma inspiração! Obrigada por isso!
    Beijinhos.

  6. Teresa Ferreira Responder

    Admiro a tua determinação e a tua resiliência e, acima de tudo, a forma otimista como encaras o teu dia com um sorrriso nos lábios. Conheço-te desde criança (encontrei-te varias vezez no antigo restaurante Concha em Espinho). És uma verdadeira inspiração para todos nós. Bem hajas!

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