A falta de acessiblidade

Sim se calhar vão achar uma perda de tempo, ler este texto. Temos pena. Porque eu sinceramente, já estou naquela fase em que também acho uma perda de tempo avisar os outros de que é sempre preciso colocarmo-nos no lugar das outras pessoas.

Confesso. Fico mesmo cansada e irritada porque na maior parte das vezes parece que se está a falar para uma parede.

Podia estar sempre para aqui a protestar e podia ser que assim alguém me ouvisse, mas a verdade é que, mais uma vez esse ouvinte, não iria saber colocar-se no meu lugar.

E é por esta razão que não o faço sempre, porque além de não haver resultado, iria, mais uma vez gastar o meu latim para falar para pessoas que mais parecem uma parede, ou seja, a parva no meio disto tudo, mais uma vez iria ser eu. E confesso que às vezes não estou para desempenhar esse papel. Outras vezes, como já estou farta deste paradigma, salta-me a tampa e faço tudo para que a pessoa que esteja a ouvir as minhas palavras não se transforme numa parede (o que é difícil, mas não custa tentar…)

Estes dias estava a navegar pela net e dei por mim a ler um artigo do jornal observador.

Foi precisamente nesse momento que a ficha, mais uma vez, me caiu. As palavras, ali escritas, tiveram um efeito de impotência e irritação em mim, mas ao mesmo tempo senti que aquelas eram as palavras que podiam ter sido escritas por mim. E sabem porquê? Infelizmente sinto na pele, todos os dias, aquelas situações lá descritas.

A cronista daquele artigo expunha-nos, sem medos e sem filtros, o horror que era andar de cadeira de rodas pelas ruas de lisboa. Quem diz Lisboa, diz outra cidade qualquer porque, infelizmente, este filme de terror repete-se vezes sem conta e o mais surreal disto tudo? os que podem realmente,  fazer alguma coisa para evitar que ele se repita, não fazem absolutamente nada.

E sabem porquê? Nunca em nenhum momento lhes tocou a eles.

O grande problema é que este tipo de questões, tocam a mesmo muita gente. Mais do que todos nós imaginamos

Não percebo como é que ainda me consigo rir disto. Mas rio. Neste caso estou a rir-me á gargalhada com a santa ignorância e falta de noção dos urbanistas. Não quero ser mazinha. Ainda assim, existem factos que me levam a conseguir comprovar que existem certas partes da matéria a que eles não chegaram e se ninguém os obrigar, a isso, com certeza nunca chegarão. Essa matéria é chamada de acessibilidade, mas tenho a certeza que muitos deles nunca devem ter ouvido falar disso…! A mim parece-me que andam bastante distraídos.

E não estou a falar de edifícios antigos. Porque a esses, reconheço que posso dar um desconto mas existem outros edifícios e detalhes que santa paciência só de quem não tem cabeça para pensar!

Imaginem só esta cena.

Vou na rua como a minha cadeira de rodas e de repente eu a pessoa que está comigo reparamos que, enquanto de um lado do passeio existe rampa do outro lado do passeio existe um degrau gigante!

Estão e agora? Como é óbvio a muito custo lá conseguimos passar… Agora imaginem se estivesse sozinha como fazia? Não saia de casa?

Desculpem mas não consigo aceitar isto! Como é que é possível não verem que aquele passeio ou aquela rampa está mal construída? Como é que é possível não perceberem que ao invés deles, a única opção que algumas pessoas têm para fazerem as suas vidas de forma mais normal e independente possível é aquela?

Ah! Já me esquecia que a sua única preocupação é o seu umbigo.

E enquanto isto milhares de pessoas ficam com a vida pendente, só porque apetece a uns quantos iluminados fazerem construções que mais parecem sei lá eu o quê! Juro que não sei o que os leva a pensar que “aquilo” pode ser prático ou que até é uma coisa bonitinha! Porque na maior parte das vezes nem é bonito nem é prático. Enfim!

Resta-nos esperar que continuem a haver os rabugentos como eu que continuem a dar conta destes flagelos, fazendo com que façam, pelo menos, alguns “remendos” e que as novas construções tenham melhores urbanistas, sobretudo com bom censo e com capacidade para pensar nos outros.

Acredito que essas mudanças estão a acontecer, mas não no tempo necessário… mas mais vale tarde do que nunca. É esperar para ver, ainda bem que espero sentada, porque decerto, terei ainda muito que esperar.

2 comentários em “A falta de acessiblidade

  1. Detty

    Apoiada!!!
    Sou desenhadora de Construção Civil apesar de alguns anos não exercer a profissão…mas, já nessa altura quando executávamos algum projecto…estava bem presente a exigência local/ municipal para as acessibilidades…e na pratica onde é que isso ficava? e a incoerência do urbanismo envolvente?
    Vamos resmungar até que despertem…afinal somos todos com iguais direitos 🙂
    Beijinhos

  2. Ana Paula Abreu

    Concordo a 1000%. Tenho um bebé e qd vou passear com ele no seu carrinho dou por mim a pensar nas dificuldades que alguém numa cadeira de rodas possa ter, pois subir um “grande” degrau com o carrinho posso bem fazê-lo. Notei mais essas dificuldades em Espinho (se calhar é dessa cidade que a Rita fala!): há rampa num lado da rua e do outro lado não há; já repararam que a avenida 24 só tem passadeiras nos cruzamentos da 33 e da 23? Entre esses dois cruzamentos temos que esperar que passem todos os carros… E já repararam que os grandes arbustos no separador central da avenida 24 tiram a visibilidade de quem anda de cadeira de rodas ou carrinho? E os ” passeios ” nesse mesmo separador central da avenida??? Uma lástima…

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