Este olhar está triste porque o” Verão Azul” escureceu.

Em 2012 por influência da minha filha Rita e o entusiasmo generoso de um amigo que estimo e reconheço como um coração grande, o José António Sousa, tive o primeiro contato com o projeto VERÃO AZUL. Fiquei a saber que a “Liberty Seguros” tinha um entendimento da responsabilidade social que extravasava fronteiras, fazendo ver às suas congêneres que uma organização, mesmo multinacional e preocupada com os resultados, podia ter um papel diferenciador na atenção aos que mais precisam. O símbolo da companhia não podia ter melhor referência visual do que a estátua da liberdade.

Todos sabiam que este projeto das crianças de Chernobyl era o orgulho do presidente da companhia por saber que estava a promover felicidade e saúde a crianças muito carenciadas de uma região do globo marcada pela miséria da radio atividade de um acidentes que não se pode esquecer. São jovens com necessidade de coisas tão simples como o sol do verão, comida variada com qualidade, médico, acima de tudo alegria sem um céu cinzento e doente que lhes esmaga uma esperança saudável.

As crianças do “Verão Azul” eram sempre recebidas numa alegria e carinho indescritíveis. Nem imaginam como era depois o aperto da partida, tristeza grande como as malas que eles levavam a abarrotar de roupas novas, guloseimas, os brinquedos que nos sobravam e serviam de prenda aos irmãos mais pequenos que lá tinham ficado sem idade para vir. Por exemplo a Roslana que recebemos lá em casa, era uma de dez irmãos e já tratava de um sobrinho bébé e do irmão mais novo que tinha nascido, entretanto.

A partida era triste, consolada apenas pela certeza de que aqueles elementos temporários da família que aprendiam rápido português, dentro de um ano voltariam para o nosso aconchego.

Em Ivankive uma parte da população vive numa honrosa miséria fria que os adultos aquecem com Vodka. Falo do que sei porque eu estive lá. Fui a Chenobyl, estive a metros do reator. Visitei e também me arrepiei na cidade fantasma de Pripriat, percorri o lugar dos vivos da região, a tal cidade de Ivankive, onde a morte é lenta e invisível pelos restos de radiação que se espalha por toda a zona ainda contaminada pela explosão de Chernobyl.

Lá encontrei imagens inesquecíveis de afetos amarfanhados por uma dura realidade. Olhos bonitos ainda expressivos, crianças fintadas pelo destino que contavam os dias que faltavam para chegar ao sol num regresso a Portugal.

Dei comigo a pensar que o mundo é pequeno e cruel para uns, a vida é dura á nascença só pelo lugar onde a nave cósmica da existência aterra para os deixar viver ou sobreviver.

Vim de lá chocado sabendo da nobreza da ação da companhia de seguros que possibilitava a vinda de um numero crescente de crianças que passavam um mês de verão com famílias portuguesas.

Este ano já foram aproximadamente 40 os jovens abrangidos pela atitude altruísta da Liberty Seguros que durante uma década promoveu o projeto. Colaboradores empenhados da empresa tratavam de toda a logística assegurando os vistos, custeando as viagens aos miúdos. As famílias de acolhimento faziam o resto, recebiam essas crianças durante um mês, davam-lhes tudo, afeto, comida, a alegria de experimentarem um ambiente familiar cheio de luz quente. Escrevi uma vez que o Verão azul era um bocadinho de céu limpo e com horizonte. Visitar Chernobyl, conhecer as condições de vida de muitas das crianças foi para mim uma experiência para a vida, senti no silencio os gritos por dentro gravados a traço fino nas minhas notas de viagem.

Percebi que os olhos de uma criança podem gritar em silêncio ou jubilar de alegria no reencontro.

O “Verão azul” era uma parceria entre uma empresa liderada por alguém com carisma e coração e um grupo e famílias que se foram afeiçoando a umas dezenas de miúdos ucranianos que todos fomos ajudando a crescer. Repararam que tenho estado a falar em passado. Na verdade, a Liberty Seguros de forma lacónica em sem qualquer respeito pelos que se amarraram com um carinho genuíno ao projeto, desligou o “Verão Azul” como se fosse um formulário que se rasura a preencher e se deita fora.

As famílias que ajudaram a fazer crescer este projeto e elevaram o nome da companhia como uma empresa de atitude diferenciadora, mereciam uma palavra, uma explicação de quem hoje manda, esteja esse “manda chuva” sem rosto, talvez sem coração, na Europa ou na América, os que cá estão apenas cumprem.

Está nos livros que que o crescimento de uma marca e a sua atitude, é indissociável ao carisma do seu líder com um incentivo constante nas equipas através de uma cultura de grupo numa atitude nobre e empenhada. O anterior presidente da companhia saiu da empresa que tem agora a operação nacional a ser gerida a partir de outro país.

O lucro das companhias é uma obrigação e compromisso de quem dirige as operações, mas não é para todos perceber a grandiosidade de dar, mesmo que pouco, sabendo que se recebe em dobro ou mais na simpatia que o dinheiro não compra. A solidariedade não é uma apólice, é uma atitude.

O direito de deixar de apoiar o projeto é inquestionável, quem paga, mesmo que seja pouco (comparativamente ao que recebe de simpatia pela marca e retorno publicitário) pode sempre dizer em qualquer altura não seguir o caminho feito. O que me indigna, o que falhou foi a falta de sensibilidade na forma de o comunicar a quem desde sempre abraçou o Verão Azul e reforçou as cores, as famílias que recebiam os miúdos da Ucrânia.

Lembro-me que a Roslana que recebi na minha família, quando cá chegou pela primeira vez se espantou tanto… como eu nunca vi ninguém espantado a olhar para a imensidão do mar. Ela nunca tinha visto o mar. Disse depois o que a impressionou, é que o mar era tão grande, tão grande…que nem se conseguia ver a outra margem.

Nas empresas tem que haver sempre alguém que para além do horizonte dos lucros, deve saber contemplar um por do sol. Deve saber que quando o sol se põe, vai nascer na outra margem onde tudo começa de novo cada dia.

Lamento que quem hoje dirige a Liberty seguros, não persinta o trabalho feito, a dedicação das famílias, as lagrimas das crianças que podem não voltar a vir ou sequer sair daquela pequena cidade onde respiram radio atividade.

Bastava dizer-nos há uns tempos, tentem arranjar outros apoios porque nós vamos deixar de ajudar.

mario.augusto@me.com

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