O relógio marca as onze da noite. Enquanto isso, além de estar a escrever, apercebo-me que, quase sem dar conta, passou um mês. E é tempo da Karolina dizer adeus a Portugal para voltar à sua terra que precisamente há trinta anos parou no tempo….

É um misto de emoções. Se por um lado, ficamos contentes porque sabemos que o mês que ela esteve viveu intensamente as experiencias de uma miúda da idade dela e essencialmente respirou ar puro que lhe dará, certamente, mais alguns anos de vida…por outro ficamos com a coração sempre muito apertado porque sabemos que inevitável o seu regresso a casa.  Casa essa onde tem onze irmãos à sua espera um campo de cultivo (altamente contaminado) e muitos animais para ajudar os pais a tratar. Pois de outra forma, não têm sustento.

Esta é uma realidade da qual me vou apercebendo através daquilo que ela conta e também por todos os relatos impressionante que já há sobre a cidade fantasma, Chernobyl. A verdade é que por muito que leia sobre isto e ela conte o seu dia-a-dia não devo ter mesmo noção desta realidade que parecia tão longe, mas está mais perto que nunca.

No domingo vai ser difícil a despedida…ainda mais porque sabemos que a Korolina não poderá vir pois completará 18 anos.

Muitas já foram as vezes que perguntaram aos meus pais e tios se acham bom que estes miúdos e miúdas venham para cá este mês sabendo que depois ficam todo o resto do ano na sua realidade. Realidade essa a que nenhum ser humano deveria ser exposto.

Para isso só tenho uma resposta que fui buscar a um texto que escrevi há um ano quando estava na altura destas mesma despedida

 

                A simplicidade

Digo-vos por experiência própria que nós raramente nos apercebemos da “nossa” realidade. Fartamo-nos de pintar a “manta”, aliás poucas são as vezes em que nos sentimos realmente realizados.

Muito poucas vezes, vejo uma pessoa a sorrir, de forma genuína

A abraçar de forma completa

A procurar na simplicidade a felicidade.

A dar sem estar à espera de receber algo em troca.

A ouvir sem julgar.

E sabem porque é que isso acontece? Têm tudo e mais alguma coisa ao seu dispor. Para além disso, acham-se donas do mundo e da razão. Acham que têm o poder de controlar tudo.

A verdade é que se pensarmos bem, nós não controlamos nada.

Mas essas pessoas acham sempre que sim. Gostam dos outros também só quando lhes apetece e só porque sim.

Querem sempre mais, mais e mais. Nem se percebem que esse mais, mais e mais já é precisamente o seu mundo.

Sinceramente, acho que cada pessoa vive como quer e lhe apetece, o grande problema é que quase sempre se esquecem das pequenas coisas e dos outros.

Podem ter tudo e mais alguma coisa, mas não têm o mais importante que é a simplicidade. Estão sempre na sua zona de conforto não conhecem nem estão para conhecer mais nada nem mais ninguém.

O que é uma grande seca!

Falo por mim, gosto de conviver com todo o tipo de realidades e pessoas, pois só assim, é que me consigo aperceber que ao contrário do que por vezes possa pensar, vivo num paraíso e é nesse tal paraíso que o meu mundo assenta.

É sempre bom sairmos da nossa zona de conforto e mostrar aos que nada têm e que mesmo assim não se queixam, que o mundo tem várias cores e formas, é muito mais para além daquilo que para eles já é conhecido.

O melhor mesmo é darmos a provar aos outros um bocadinho do nosso mundo para que eles facilmente se apercebam que o paraíso também existe e não está assim tão distante.

Sinceramente aquilo que realmente sinto neste momento é que eu e o resto da família (os meus tios primos, os meus pais e os meus irmãos)  abrimos o nosso coração à Karolina e mostramos-lhe um novo mundo  e isso é a sensação mais gratificante que pode haver.