O bailado traiçoeiro das chamas…

Junho 19, 2017 Rita

“Fui sabendo do incendio bem longe. Sempre que ligava para casa, falavam-me dessa calamidade. Procurei saber, inteirar-me numa curiosidade dorida, na dificuldade de me colocar no sofrimento daqueles que resistiram.
Por muito que quisesse, ( de quem pensa e se preocupa com o seu semelhante) não podia deixar de refletir sobre a aflição dos que pereceram neste terrível acontecimento.
Num mundo tão tecnológico e global, é duro e dá que pensar, que a natureza tem sempre a ultima palavra e não há tecnologia que reverta essa lei universal. Ficamos pequeninos, impotentes, exaustos num combate desigual. É sempre assim nas grandes catástrofes.
É verdade que somos solidários, vamos a correr mas foram outros que sofreram a interioridade, algum desordenamento e o isolamento de regiões mais esquecidas e já muito fustigadas sempre que a balança da natureza faz ajustes de contas sem aviso.
O raio foi identificado, vindo de uma trovoada seca, numa árvore especifica que serviu de ignição. Ainda gostava de saber como se chega lá, àquela arvore queimada da floresta que ainda arde.
Mas o que importa ir procurar a árvore se morreram pessoas em desespero quando fugiam já no limite da sua resistência. Fugiam das casas que ardiam, fugiram nos carros que os levaram a um túnel de chamas.
Dói mais por saber que não chegaram ao fim da estrada aquelas crianças, casais jovens intoxicados pelo fumo e por esse bailado traiçoeiro das chamas que o vento sopra.
O que é que falhou?! Era importante saber, não nos basta como resposta saber da secura da trovoada, do raio fatal para uma arvore. Como diz o escritor , as árvores morrem de pé….as vítimas deste terrível drama desaparecem na aflição da fuga, na tentativa de salvar o que tinham, naqueles lugares que não eram mais do que uns pontinhos no mapa da interioridade, hoje são apenas uma mancha negra na memória do país que é visto á distancia pelo poder, com promessas de um plano de ordenamento da floresta e do controlo expansionista do eucaliptal que é um negócio rentável, dizem por aí. Mas desta vez os que sofreram, sofreram amarados sem poder fugir.
Será que vamos agora pensar melhor a floresta?
Trovadas secas voltam certamente. Raios certeiros também regressam, as vidas que se perderam é que não.
O poder e o país deves-lhe tudo. Nem que seja a memória do futuro, especialmente os que tinham todos o futuro enfrente, as crianças e os mais jovens que morreram nesta calamidade.
A dor não tem medida, cada um sente-a á sua maneira, mas nunca deixa de ser dor.
Esta foto (tirada pelo repórter do jornal Publico) é a imagem que para mim melhor reflete essa dor. Troncos amontoados em brasa sem poder escapar ao varrimento das chamas.”

Texto de Mário Augusto

Imagem: Público 

 

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