Quando eu era pequena, faziam-me sempre a mesma pregunta: “ Achas que algum dia, vais andar normalmente?…” E eu sempre respondi: “sim!…”.

Porém, isso foi até eu dar conta que esse desejo de andar normalmente lá no fundo não era meu, pois percebi que as pessoas em cadeiras de rodas são consideradas pelos outros,  pessoas  fora do  normal.

Antigamente eu não me via diferente, sempre aceitei ser quem eu sou, aceitando também o meu corpo exatamente como ele é, achando assim, que todas as pessoas à minha volta faziam o mesmo… Até perceber que não era bem assim.
Entretanto, todos nós, temos que passar por aquela fase cheia de turbulência chamada adolescência, não é verdade? Já pararam para pensar o que é ser um(a) adolescente em cadeira de rodas? Eu posso garantir para vocês que não é nenhum milagre transcendente ou divino. É, basicamente, a mesma coisa para todas as pessoas.
Contudo, a maior dificuldade, para uma pessoa em cadeira de rodas, não é a física, mas sim, a social. É perceber que apesar de me sentir como uma pessoa comum, na maioria das vezes, sinto que  as pessoas  não me conhecem e consequentemente,  tratam-me  como um ser inferior, não vendo aquilo que eu realmente sou, apenas,  por causa da deficiência, ou noutras situações , veem-me  como “super heroína” fazendo com que assim   , me distancie da pessoa normal que sempre fui.

As pessoas quando me veem e dizem   frases do tipo: “Como és  inteligente!” ou “como és bonita!” e eu não consigo deixar de completar mentalmente: “…só mesmo porque ando em cadeira de rodas .” Como se, qualquer uma dessas qualidades fosse algum tipo de milagre!
Existe um estigma muito forte em relação aos PC’s (pessoas com Paralisia Cerebral) por causa das sequelas na fala, na coordenação motora e até na capacidade cognitiva.

Todos os graus de PC são diferentes (…)

Se eu disser que tenho Paralisia Cerebral, é normal que as pessoas fiquem   surpresas por, por exemplo, me ouvirem falar.

A verdade é que isto acontece como muito mais frequência do que aquela que eu gostaria, e aposto que várias pessoas, com outras patologias, também passam pelo mesmo.

Estas situações só servem para reforçar o fato de que a pior parte da deficiência, não é a dificuldade do corpo, mas sim o simples facto de cresceres e perceberes que a sociedade não te trata como a pessoa que tu sabes que realmente és.

Aliás, poucos me irão conhecer realmente como sou.

Adaptação  do texto publicado no blog brasileiro:  Cantinho dos cadeirantes